editorial
Curto
e grosso, feito uma canção dos Ramones: o tema MÚSICA suscitou tantos
textos que fui obrigado a preparar uma edição extra só com as (excelentes)
B-sides recebidas. E se preparem: talvez eu seja obrigado a lançar um
novo volume, composto por sobras de estúdio, takes alternativos e versões
ao vivo. Coisa fina, só para os fãs que sabem que esses álbuns reservam
surpresas tão boas (ou até melhores) que os discos oficiais.
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bette,
vanguardista
Todas as expectativas
foram contrariadas de uma só vez quando Bette tomou o palco com o baixo
emprestado do ex-namorado, acompanhada de sua troupe de marmanjos. Um
esquisito na bateria, um estranho na guitarra, Bette no baixo. O povo
silencioso mamava seus drinks esperando por algo default. Uma enrolaçãozinha
antes da grande atração da noite.
Bette testou o microfone, tap tap tap, alô som. "oi, nós somos Os
The. UM DOIS TRÊS QUATRO!". Era o sinal. A música ficou gravada na
cabeça daquele pessoal para sempre: "Você é feio mas chupa bem".
Mãe natureza
sabe o que faz
Se cobra tivesse asa não sobrava ninguém
Olha só que surpresa gozei três vez
Você é feio mas chupa bem
Queixos caíram
na platéia. O som era distorcido por completo, uma massa amorfa que arrepiava
os pêlos da nuca, uma beleza que poucos era capazes de perceber por baixo
da crueza daquilo tudo. E o corinho:
Você é feio
mas chupa bem
Você é feio mas chupa bem
É uma pena que você não coma ninguém
Você é feio mas chupa bem
E fim. Estrofe-refrão-estrofe-refrão-estrofe-refrão,
três acordes. Sem solo. Sem nada. Uns já ouviram coisa igual em discos
importados. Outros não entenderam, mas acharam melhor ficarem calados.
Tocaram uma música,
rápido, e deram lugar ao ato da noite, uma banda de rock progressivo instrumental.
Verdade seja dita, todos tiveram dificuldade de acompanhar o show. Bette
e sua troupe se encostaram no bar e mamaram cervejas até as quatro da
manhã. Todos se seguraram, ninguém conversou com eles. Levava um tempo
para digerir. Deixaram o local, entraram no Corcel e foram atingidos por
uma carreta. Pá-pum.
Morreram os três.
Foi em uma cidade
qualquer do Brasil, o ano era 1979. Bette era uma vanguardista.
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r
á p i d a s r a s t e i r a s
"Essa
vai para aquela mulher que sabe cruzar as pernas no momento certo e descruzar
na hora exata".
(Wando,
sempre ele, ao dedicar uma de suas singelas canções em seu mais recente
show, intitulado "Romântico Brasileiro", no qual ele interpreta
músicas Cazuza, Gonzaguinha e Lulu Santos)
"E
este Thom Yorke reclama tanto da vida chata dele que qualquer dia ele
vai cometer suicidio cortando os pulsos com uma faquinha de rocambole.
Pra mim, dignidade indie é ser como o saudoso Richie do Manic Street Preachers,
que sumiu sem deixar rastro, completamente glamouroso. Tá com depressão,
santa?? Sua vida é um tédio?? Faz assim: enfia um pepino pelo cu e tenta
pegar ele com uma agulha através do buraco da orelha, sua gazela reumática
e peidorrenta!!"
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o
rock? tá aqui, ó
Quantas vezes você
já ouviu que o rock já morreu? Ou que ele está velho e ultrapassado? Que
o jazz ou o samba ou sei lá que estilo é mais “rock” que ele? Ou que não
se produz nada de novo? Ou ainda: que no Brasil o rock não produz nada
de novo?
Com certeza quem diz esse tipo de coisa não tem ido a festivais. Aí você
pode pensar no Rock in Rio 3, com sua escalação bizarra e o som baixo,
ou no Free Jazz, com público que muitas vezes não está nem aí pras atrações,
e achar que eu estou louca. Mas não, não é desses festivais que eu estou
falando: é dos festivais independentes.
Eles são feitos por gente que se criou no rock, gente que não está preocupada
só com dinheiro – que quer ganhar dinheiro, sim, mas sem prejudicar a
qualidade por isso. Gente que tem amor à coisa. Que estava cansada de
ver sempre shows das mesmas bandas. Ou de não ver show nenhum em sua cidade.
Gente que queria tocar com uma boa estrutura. Ou seja: gente que não estava
satisfeita com o que existia e resolveu fazer do próprio jeito.
Não à toa existe uma legião de pessoas viciadas em festivais, que viajam
pelo Brasil afora em busca do roque. Para mim, particularmente, o ano
decisivo foi 2001. Abril pro Rock, em ano de escalação privilegiada. É
claro que eu já havia ido a diversos outros festivais fora os (saudosos)
Hollywood Rocks da vida. Como os finados Expo Alternative (o primeiro
a que assisti, em 1995) e Super Demo, marcos na cena independente carioca
e até nacional. E também a um Abril pro Rock, em 1998. Mas o de 2001 foi
diferente.
Vários fatores
contribuíram para que eu tomasse gosto pela coisa definitivamente. Primeiro,
a escalação primorosa, com Asian Dub Foundation, Jon Spencer, O Rappa,
Nação Zumbi, entre outros. Depois: oito pessoas dos mais diversos lugares
do país, reunidas num apartamento perto da praia de Boa Viagem, em Recife,
credenciamento para o festival (circular entre os artistas do festival
era o momento Quase famosos), textos escritos sob o efeito da empolgação,
muito improviso e a gente fazendo o que gostava. Parecia sonho.
Desde então, fui a todos os festivais independentes que pude: a edição
do Circadélica (em Sorocaba, SP), Goiânia Noise e Upload (São Paulo),
e este ano aos cariocas Humaitá Pra Peixe (já consagrado) e Ruído.
Obviamente, não é barato fazer essa peregrinação pelos festivais. A solução
dos sonhos para alguém como eu seria arrumar um emprego de repórter num
veículo que mandasse cobrir os eventos. Mas como não se acha nem emprego
nem na área que eu gosto nem em qualquer outra do jornalismo, o jeito
é se virar.
As passagens da Gol e da Fly (em SP tem a Nacional) costumam ser mais
baratas que as das outras empresas – que, aliás, muitas vezes têm tarifas
promocionais, ainda mais comprando com antecedência. Dá pra parcelar as
passagens no cartão de crédito. Distâncias menores (como Rio–São Paulo)
podem ser percorridas de ônibus tranqüilamente. Convencendo um amigo a
ir de carro, sai mais barato ainda – vocês podem dividir a gasolina e
o pedágio, e ainda vão ter a comodidade de estar de carro na cidade. Tendo
amigos na cidade do festival, já é menos um gasto: hospedagem. Mas na
falta, o jeito é apelar pra pensões ou hotéis chulés (afinal, ninguém
vai pra outra cidade pra ficar enfurnado no hotel).
Este ano não pude ir a nenhuma das duas edições do Abril Pro Rock (que,
aliás, completou 10 anos), mas já assisti a dois festivais aqui no Rio
e estou me preparando pra mais. Próximas paradas: Super Noites do Senhor
F, em Brasília, e Bananada, em Goiânia (as escalações estão em www.senhorf.com.br
e www.monstrodiscos.com.br,
respectivamente).
Ah, sim, e os festivais são excelentes pra as bandas, claro. É uma ótima
oportunidade de tocar para públicos maiores (quem vai pra ver uma banda
acaba vendo as demais, e tem quem vá só pelo evento em si, disposto a
ver tudo) e em condições geralmente melhores que as dos shows comuns (em
termos de local e equipamento, por exemplo).
Dos diversos festivais que já aconteceram, alguns são periódicos, e vale
muito a pena tentar ser escalado para eles. Atualmente, além das duas
edições do Abril Pro Rock (Recife e São Paulo), que mistura bandas independentes
e consagradas, existem o Rec Beat (também na capital pernambucana), o
Humaitá Pra Peixe (Rio de Janeiro), Cabrón Festival (Floripa), Bananada
e Goiânia Noise (em Goiânia), Noites do Senhor F (Brasília), Campeonato
Mineiro de Surfe (Belo Horizonte), o MADA (Música Alimento da Alma, em
Natal), só de cabeça. Provavelmente eu esqueci de algum.
Ah, e também vai rolar na zona da mata de Minas Gerais um festival numa
fazenda, o Green Rock. Parece bem legal. Mais informações no (0xx21) 2610
8596 ou greenrockfestival@hotmail.com,
e pra mandar material é: Rio de Janeiro – Avenida Rio Branco, 185/1418,
Centro, Rio de Janeiro, RJ, Cep 20040-007, ou Minas Gerais – Avenida Rio
Branco, 2370/610, Centro, Juiz de Fora, MG, Cep 36016-310.
Então é isso. Vá a festivais, participando, organizando ou assistindo.
E da próxima vez que alguém perguntar cadê o rock, cadê o espírito do
rock, cadê a atitude no rock, cadê a renovação do rock nacional, você
já sabe onde está.